EXPEDIÇÃO GRUTA DOS BREJÕES – 2026

EXPEDIÇÃO GRUTA DOS BREJÕES – 2026

GRUTA DOS BREJÕES

Alcir Santos

O grande dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho teria pontuado: “Para achar água é preciso escavar a Terra, chafurdar na lama; mas há os que preferem olhar para o Céu.” Para nós a escolha não foi difícil, embarcamos na primeira alternativa. Deixamos de lado idade, comorbidades, dores musculares, e partimos para a trilha pelo interior da Gruta dos Brejões, tendo como ponto de apoio a Comunidade Quilombola do mesmo nome.

Carlos Aquino, irmão e amigo, propôs a empreitada. Abraçamos o projeto, Orlando Marques, Chico Aldeci e eu, sendo que Chico ficaria em Morro do Chapéu, revendo amigos. Aquino, no comando da operação, fez os contatos com Franco Dourado e Luiz Alves dos Santos, que aceitaram a tarefa de nos guiar. Cuidou das reservas na Pousada Ecológica das Bromélias e da locação do carro, entre outras providências necessárias para o êxito da missão. No embalo do feriado de primeiro de maio, ficou estabelecido o período de 30 de abril a 03 de maio, quatro dias e três noites, com um percurso de 1.273 km por estradas precárias, plenas de buracos e insegurança, terrível combinação de excesso de veículos com estradas defasadas. Por volta das 14 horas da quinta-feira, saímos de Salvador com destino a Feira de Santana, trafegando por uma BR-324 superlotada de carros, a par de obras que nunca terminam e acidentes diversos. Uma pequena parada em Berimbau, e somente por volta das 18 horas chegávamos para nos hospedar no NH Hotel Feira de Santana. É um prédio modernoso, todo envidraçado, linhas retas e péssimo gosto, camas com colchões altos e caídos nas bordas, além de um sanitário incompatível com velhos, vaso bem baixo, box sem tapete e barra de segurança.

Dia seguinte, logo após o café, tomamos rumo em demanda de Morro do Chapéu, nossa cidade-base. Primeira parada técnica em Bravo, distrito do Município de Serra Preta. Na sequência, Ipirá, cidade conhecida como Capital Estadual do Couro, em razão da sua produção industrial e artesanal de artefatos exportada, basicamente, para o Sudeste. Parada rápida, olhada nas lojinhas – preços altos – e seguimos em frente até a próxima.

Chegamos no Mosteiro de Jequitibá, fundado pelos monges cistercienses, oriundos da Áustria, em agosto de 1939, em área doada pelo casal Cel. Plínio Souza e D. Isabel Fernandes Souza. Hoje, o mosteiro tem no seu entorno algumas comunidades. Os monges cuidam de um pequeno criatório de gado e mantêm uma pousada nas instalações do mosteiro. Vale a parada, especialmente pela igrejinha, com sua arquitetura parecida com a de São Francisco, na Pampulha, em Belo Horizonte. Mas o ponto alto são seus murais internos, inspirados na Paixão de Cristo, de cores suaves e figuras humanas em delicado alto-relevo.

Agora estamos em Vila Ventura, aproximadamente a 30 km de Morro do Chapéu. O nome deriva do Rio Ventura. Aqui, um bom exemplo da “maldição do minério”: a riqueza e o dinheiro se vão de mãos dadas e deixam para trás buracos na terra, abandono, filhos sem pai e miséria. Aqui não foi diferente. Diz-se que, no auge da exploração, abatiam por semana 60 bovinos, além de caprinos, ovinos e aves, tamanha a quantidade de pessoas para alimentar.  Diz-se. Agora que já não existem os diamantes e o carbonato, resta o vilarejo de algumas poucas casas – bem cuidadas, é verdade –, cerca de 20 habitantes e um silêncio que incomoda o visitante. Nem um bode, nem um cachorro, nem uma galinha: só o silêncio cortado pelo farfalhar das folhas das pequenas árvores.

Pelas cercanias de Morro do Chapéu, também há a Cachoeira do Ferro Doido, destaque da área de proteção estadual. É uma queda d’água de cerca de 80 metros, mas, na atualidade, com a falta de chuvas, de cachoeira só o nome. Sem a queda, preferimos fazer curta caminhada pela parte alta, admirando a extraordinária paisagem e, para não deixar passar o momento, um delicioso banho no pequeno curso d’água. Deitar no córrego, deixar o corpo relaxar, mirando o céu azulzinho, pensamentos soltos, voando…

Poucos minutos após Ferro Doido, chegamos a Morro do Chapéu, tratando de descarregar as mochilas na simpática Pousada Ecológica das Bromélias. Grata surpresa, a começar do atendimento, continuando pelas instalações quarto amplo, cama com um colchão muito bom, junto com todos os demais componentes: um café da manhã daqueles, com o toque único da cozinha nordestina. Para completar, o jardim que rodeia a Pousada, muitíssimo bem tratado, convida a um passear sem pressa.

Morro, como se costuma chamar o local, é sede municipal e, no caso, a base para atingirmos nosso objetivo. Com uma população estimada de 35 mil habitantes, deriva da freguesia de Nossa Senhora da Graça do Morro do Chapéu, elevada a Município em 1909. Fundada em 1853, cresceu em torno da exploração de recursos naturais e se tornou um importante centro regional ligado à agricultura e à mineração de pedras preciosas, especialmente nos séculos XIX e XX. Localizada na Chapada Diamantina, a uma altitude de aproximadamente 1.100 metros, a cidade é cercada por montanhas e possui um relevo caracterizado por vales, chapadas e rios, além de rica flora e fauna. Também é conhecida por sua cultura, que inclui festas tradicionais como a de São João e o Festival de Inverno. A música, especialmente o forró e a sanfona, são elementos marcantes. A culinária local é rica em pratos típicos, como a carne de sol e o bode assado.

Primeiro de Maio, sábado, após o café no hotel, por volta das oito horas, devidamente vestidos e calçados, munidos de água, tomamos o rumo do Quilombo da Gruta dos Brejões. Antes de partirmos, Aquino nos presenteou com uma sacola contendo camisa UV, lanterna de mão, lanterna de cabeça, luvas e máscaras. Hora de buscar superar-se, deixar os achaques de lado e lembrar aos anciãos que já não restam muitas alternativas, é partir ou partir, pois já vivemos na regressiva e já não há muito que caminhar…

Seguimos o carro de Franco, nosso intimorato guia, por um total de 273 km de estradas de barro, entrecortadas, vez por outra, por alguns poucos metros asfaltados, quase sempre em frente a vilarejos, adornados com parques infantis e academias ao ar livre. Resultado das tão faladas “emendas orçamentárias”? Somente por volta das dez horas desembarcamos no Quilombo, base da nossa empreitada, onde nos aguardava o outro guia, Luiz, morador da comunidade, pequeno criador de cabras.

A Gruta, objetivo fim da viagem, está Inserta na Área de Proteção Ambiental Gruta dos Brejões/Vereda de Romão Gramacho, semiárido baiano. Teria sido descoberta em 1877, mas se fez conhecida graças aos escritos do Padre Camilo Torrend, em 1938. Daí a homenagem que lhe fizeram dando seu nome a um dos salões da gruta.  A APA teria como objetivo proteger e conservar as formações geológicas, as cavidades subterrâneas, os espeleotemas, os animais cavernícolas e as águas subterrâneas do rio Jacaré, além de preservar a vegetação natural e proteger os sítios arqueológicos (pinturas rupestres e abrigos sob rocha) e paleontológicos (fósseis de animais pleistocênicos). Assim, está tudo bem definido. Presença do Estado? Algumas placas indicativas já duramente castigadas pelo tempo e pelo abandono. Agora, deixemos de lado minúcias técnicas e políticas e… Toca o bonde pra Lapinha!Reunidos em torno de Franco e Luiz, ouvimos as orientações de praxe. Finalmente, partimos.

Às dez e trinta, descíamos a trilha a caminho da entrada. Pouco depois, já podíamos contemplar o magnífico vão de mais de cem metros de altura, uma aula de humildade ante a magnitude das criações de Mãe Terra. Espantados, nossos olhos tentavam abarcar todo o conjunto – abertura, vegetação, céu azul permeado de nuvens claras. Vale lembrar os versos de Victor Hugo no poema imortal: “Ante o templo nos descobrimos/Ante o altar nos ajoelhamos.” Sim, não há do que duvidar, a Gruta dos Brejões é um templo magnífico. Guarda no seu interior um sem-número de altares, formações rochosas milenares desenhadas, caprichosamente, pelo incessante pingar de água e pelo vento ao longo de dezenas de milhares de anos. Uma dessas experiências que a gente não esquece.

E se o corpo já sofre os efeitos do passar dos anos, aí é que não se esquece mesmo. Brejões não é uma caverna qualquer. Começa que a escuridão é absoluta a exigir uso de lanternas durante toda a travessia de mais ou menos seis horas. O terreno é um perigo só: pedras, pedras soltas, e uma espécie de areia que provoca escorregões terríveis. Tudo a exigir muita atenção e cuidado, subidas e descidas.

Descemos. Na entrada, um cruzeiro de madeira. A seguir, à direita de quem entra, um altar católico, adaptado sobre formação rochosa e um monte de objetos como roupas, bolsas, mochilas, sapatos, ali deixados como oferendas. Os olhares se estendem mais ao fundo. A escuridão absoluta nos convida a acender e conferir as lanternas e as garrafas d’água. Adentramos e nos deparamos com o primeiro de inúmeros espeleotemas, uma grande estalagmite. Na sequência, o portentoso Bolo de Noiva, uma enorme formação rochosa de uma cor amarelada muito própria.

Até aqui, o corpo, talvez sob o impacto inicial, ainda não dá sinais de desconforto ou dores. Mas já dá para perceber a dificuldade da nossa empreitada. Franco e Luiz lembram a necessidade de manter as lanternas ligadas, seguirmos próximos, mas evitando ficar muito juntos. Muita atenção para o piso irregular, escolher onde dar cada passo.

Subindo e descendo por entre os milenários pedaços de pedras, chegamos ao Salão dos Mapas Travertinos, figuras em alto e baixo relevo plantadas no chão, sugerindo mapas de alguns cantos da Terra. Na sequência, o Salão de Festas, onde Franco convida-nos à reflexão: pede para apagarmos as lanternas e que, de olhos abertos ou fechados, deixemos a imaginação viajar, o coração livre para pulsar num ritmo mais lento, consentâneo com o momento.

À medida que avançamos, mais espeleotemas vão sugerindo figuras as mais diversas, como sejam uma cortina de igreja, um falo ereto, animais de todo tipo, sem falar da enorme estalagmite com jeito de portal. A seguir, o Pão de Açúcar e o impensável Salão Quente, espaço onde a temperatura é mais elevada, diferente de todo o restante da Gruta.

Como tudo tem um preço, os corpos começam a apresentar seus reclamos, na forma de dores diversas e joelhos que se recusam a seguir impulsionando pernas que,  aliás, já dão sinais evidentes de cansaço. Eu, o mais velho e menos preparado fisicamente começo a ter enorme dificuldade em continuar.

É aí que entra em ação Franco. Ele passa a me acompanhar, segurando mãos e braços, apoiando, evitando escorregões e quedas. Agora percebo uma certa imprudência na decisão de vir. Imaginei que, se ficasse sem condições de continuar, poderia ficar sentado aguardando o retorno do pessoal. Agora, um tanto assustado, me dou conta da impossibilidade: o retorno é por outro caminho. Aí é que percebo o tamanho da ousadia do desafio que me propus a realizar. Peço para parar um instantinho, tomo alguns goles d’água, faço exercícios de respiração, procuro forças, seguro os bastões e seguimos…

De repente, as trevas são violadas por um enorme facho de luz solar. É a Claraboia, um enorme buraco no teto, resultado de um pedaço que, há milhares de anos, partiu e se soltou. Graças à fonte de luz, há uma nesga de vegetação própria no entorno. Aqui é ponto de parada e descanso. Buscamos pedras que permitam sentarmo-nos. Franco e Luiz baixam as mochilas e nos servem o lanche. Entre uma mordida e outra, aproveitamos para uma troca de impressões.

O sentimento geral é de euforia, a despeito do cansaço e das dores. Os guias nos convidam a comparar o teto com o buraco e, depois, perguntam com um quê de maldade: “Pensem bem se uma outra claraboia resolve se abrir sobre nossas cabeças?” Confesso que, olhando aquele teto com suas incontáveis toneladas, senti um pequeno calafrio. Mergulhamos novamente na escuridão, garantidos pelas lanternas, e logo à frente avistamos duas estalactites lembrando um leão deitado e um símio de grandes proporções, seguida de outra de cor rósea, algo inusitado naquele ambiente quase monocromático, em suas múltiplas variações de marrom e creme. Uma estalagmite mais clara atrai as atenções porque lembra uma pia batismal ou uma manjedoura.

Depois de tanto deambular, subindo e descendo pedras e pedregulhos, somos surpreendidos ao pisar num espaço de pura areia, a sugerir um pequeno campo de futebol. A caminhada fica um pouco confortável, mas logo entramos numa perigosa área de seixos rolados – tudo a lembrar que em algum momento, séculos e séculos atrás, por ali passou um rio. Seria o hoje raquítico rio Jacaré, córrego acanhado que cruzamos com água à altura dos joelhos, e mais adiante ainda atravessamos sem molhar os pés, apenas nos apoiando nas pedras do leito?

Franco e Luiz chamam nossa atenção para algumas passagens laterais, passíveis de levar visitantes desavisados a erros fatais. Aqui, ali e acolá, alguns rasos espelhos d’água que poderiam até ensejar um banho, desde que fosse sentado ou deitado. Tomamos outra passagem, que leva à portentosa entrada, pavimentada de pedras soltas, traiçoeiras. Ainda assim pudemos, já na subida íngreme, apreciar o Bolo de Noiva, à nossa esquerda, o Altar à direita.

Na sequência, aquela imensa satisfação pelo êxito obtido, uma sensação muito íntima, difícil de traduzir, uma euforia capaz de fazer até esquecer as costas, as pernas e, principalmente, os joelhos doridos. Chegamos! Após cerca de seis horas de árdua caminhada, estamos de volta ao Quilombo da Gruta dos Brejões, em demanda da casa de Luiz, onde sua esposa nos esperava com um banquete feito de carne de bode, galinha caipira, suco de umbu, e outros acepipes típicos da região.

Ali, com goles de uma boa pinga confraternizamos, nos abraçamos. Saudações aos valorosos guias! De minha parte, chamo Franco de lado e faço questão de lhe dar um demorado abraço, entre frases de sincero agradecimento. Sem sua ajuda, o resultado poderia ser outro, talvez bem triste. Com o entusiasmo revigorado, já pensando noutra jornada, permito-me parafrasear Gonçalves Dias: “À noite na sala, se alguém duvidar/do que lhe contar/Direi sorridente/Meninos, eu vivi.”

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