SERRA DA CAPIVARA

SERRA DA CAPIVARA

SERRA DA CAPIVARA

Alcir Santos
Maio/2009

“O certo é que não sabemos nos aproximar de outros sem destruí-los. Nossa civilização ocidental, cristã e européia, tão destruidora e igualmente má para si própria, cria um tipo de sociedade que só tem podido viver e prosperar à custa de milhões de vidas escravizadas e anuladas. O preço de nosso adiantamento técnico e mercantil tem sido a dignidade do próprio homem; uma organização social que é uma máquina de criar párias. Isso é o que temos tido. Essa é a obra do homem branco.” – Darcy Ribeiro – emoldurada numa das colunas do Museu do Homem Americano, S. Rdo. Nonato (PI).

Choveu na caatinga. A vegetação aparentemente morta, amarelo-amarronzada, deprimente e triste, se reveste de variegadas nuances de verde. Não satisfeita oferece, como adereços de mulher vaidosa, um sem número de delicadas flores das mais diversas tonalidades. Borboletas e abelhas voejam por todo o lado na farra do néctar e da conseqüente polinização. É como se a caatinga adormecida acordasse, estuante de alegria, a se exibir sem pudores numa maravilhosa celebração da vida.

Bioma típico do nordeste brasileiro de clima semi-árido apresenta ao longo do ano características distintas. Quando da estação das chuvas, entre novembro e maio, a vegetação surpreende pelo verde e pela exuberância das flores. Com a seca as folhas da maior parte das espécies amarelecem e caem transformando a paisagem numa floresta de troncos cinza e de ramas densamente entrelaçadas, oferecendo uma cor homogênea, como se um manto escuro cobrisse a vegetação à espera do retorno das chuvas para, então, se transmudar numa explosão de vida e cores. Por sua incrível capacidade de regeneração e sobrevivência a caatinga é tão ou mais forte que o sertanejo de que nos fala Euclides.

O Parque Nacional da Serra da Capivara, situado no sudeste do Piauí, é o único inteiramente localizado nesse ecossistema. Ocupa uma área total de 130.000 hectares com um perímetro de 240 km; criado pelo decreto federal nº 83.548, de 05.06.1979 abrange os municípios de São Raimundo Nonato, São João do Piauí, Coronel José Dias e Brejo do Piauí. Declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO o Parque foi criado para preservar um dos maiores tesouros arqueológicos do mundo: milhares de inscrições pré-históricas com idades de 6 a 12 mil anos gravadas em paredões de rocha. As pinturas representam aspectos do dia a dia, danças, ritos e cerimônias dos antigos habitantes da região, além de figuras de animais, alguns já extintos. Nas escavações ali realizadas os pesquisadores encontraram ferramentas, restos de utensílios de cerâmica e sepultamentos. Pesquisando as descobertas feitas na área arqueólogos concluíram que o homem teria habitado o continente americano há mais de 30 mil anos – contrariando as teorias mais aceitas pelos cientistas, especialmente a que assevera ter o homem americano chegado há 12 mil anos vindo da Ásia e atingindo o Alasca pelo estreito de Behring.  Essa descoberta deve-se a uma missão arqueológica franco-brasileira chefiada pela arqueóloga Niede Guidon, brasileira de formação francesa.

Depois de criado o Parque passou dez anos abandonado por falta de recursos federais, dando ensejo a um intenso processo de depredação tanto da flora, com caminhões que vinham do sul do Brasil para levar de maneira descontrolada as espécies nobres desmatadas, como da fauna graças a caça comercial que praticamente fez desaparecer espécies como veados, emas e tamanduás. A FUMDHAM (Fundação Museu do Homem Americano) é quem administra o parque, em parceria com o IBAMA. Os resultados da atuação do órgão dirigido por Niede Guidon são visíveis. Além do desenvolvimento das pesquisas com atuação de técnicos de todo o mundo, criou opções de trabalho para os nativos e fez surgir um sentimento preservacionista; prova disso é que hoje a atividade rural mais difundida é a apicultura que sabidamente não danifica o meio-ambiente.

Atualmente existem duas formas de se chegar a São Raimundo e ao Parque. A partir de Petrolina (300 km) ou de Teresina (530 km). Como neste ano será realizado ali um congresso internacional com a presença de autoridades, cientistas e estudantes dos mais diversos países, fala-se na construção de um aeroporto. Se dependesse apenas de mim mesmo possivelmente nunca iria até lá. Por sorte meu irmão Carlinhos carrega consigo três fatores imprescindíveis a uma empreitada dessas: tem vocação de motorista de caminhão, adora ecoturismo e tem uma dessas enormes caminhonetas que atravancam o trânsito das cidades, infernizam a vida de todos e fazem a alegria de um sem número de mulheres. Ainda assim tivemos de fazer a viagem em duas etapas, tanto na ida quanto na volta (Salvador/Petrolina/São Raimundo/Petrolina/Salvador) e enfrentar algumas boas dezenas de quilômetros de estradas por onde os políticos não passam…

A época escolhida para conhecer o Parque Nacional da Serra da Capivara não poderia ser melhor. A vegetação verdinha, as flores e a temperatura amena são um convite as caminhadas e a visitação dos sítios. Como já havíamos feito reservas no Hotel Serra da Capivara (hotelserradacapivara@firme.com.br) pudemos aproveitar todo o tempo disponível. Chegando ao hotel D. Nelma, a gentileza personificada, cuidou de providenciar uma refeição rápida enquanto esperávamos a nossa guia. Por volta das 13h30min do dia 01.05, devidamente acompanhados pela guia credenciada, Auremilia da Costa Silva (aurecsc@yahoo.com.br) partimos em demanda da primeira trilha. De logo Auremilia deixou claro estar capacitada para a missão; graduada em história e cursando Arqueologia revelou-se uma ótima companhia já que, além do conhecimento do parque e de suas coisas, tem bom nível cultural o que nos permitiu, nas trilhas e nos momentos de descanso, tratar dos mais variados assuntos, especialmente história, geografia e viagens. Tranqüila e segura no comando do nosso pequeno grupo garantiu o equilíbrio necessário a empreitada.

Iniciamos a caminhada indo ao Baixão do Sítio do Meio considerado um dos mais importantes do parque graças a quantidade e qualidade das suas pinturas rupestres; aqui também foram encontradas as peças de cerâmica e a machadinha de pedra polida mais antigas das Américas, com mais ou menos 9 e 8 mil anos, respectivamente. Em seguida passamos por Pedro Rodrigues, sítio que se destaca por possuir um microclima muito peculiar e estranho ao Parque porque guarda resquícios da Mata Atlântica. Dali rumamos para o Boqueirão da Pedra Furada, possivelmente o sítio mais antigo das Américas e mais importante do Parque, com mais ou menos 48.000 anos, conforme datação feita graças aos restos de uma fogueira, além de cerca de 1.200 pinturas rupestres cadastradas, com idade entre 6 e 12.000 anos. Dentre elas destaque para duas que nos permitem algumas ilações. A primeira usada como símbolo do Parque, pode significar o amor materno com o camelídeo maior protegendo o menor, em pé sob a barriga da pretensa mãe; a segunda, popularmente conhecida como “O Beijo” representa dois humanos, corpos afastados e rostos que se tocam. Com inscrições assim estariam os antepassados nos legando uma mensagem da importância do amor no seu sentido mais lato?

Fomos até o Alto da Pedra Furada, subida íngreme com cerca de cento e cinquenta metros de desnível e mais quatro lances de escada metálica cravada na rocha. Lá de cima, sentindo e ouvindo o vento demoramo-nos, engolfados na paisagem dos vales, abarcando com os olhos todo o Baixão da Pedra Furada, o povoado do Sítio do Mocó e a sede do Município de Coronel José Dias. Após a descida caminhamos para a formação que mais impressiona ao visitante, a Pedra Furada, uma abertura de 15 metros de diâmetro num paredão com mais de 60 metros de altura, indiscutivelmente o cartão postal do Parque, tanto assim que construíram na sua base um anfiteatro onde se apresentam espetáculos que não prejudiquem o meio-ambiente.   Seguindo a caminhada paramos para apreciar a Toca da Fumaça com suas marcas de fumaça no paredão; ali perto, na Toca do Cajueiro, tivemos a oportunidade de olhar resquícios de uma casa construída tendo como uma parede e teto a própria rocha arenítica. Retornamos ao Centro de Visitantes para aguardar o anoitecer e a hora de apreciar o Boqueirão da Pedra Furada com uma magnífica iluminação artificial que faz ressaltar as inscrições rupestres. Dali retornamos ao hotel onde nos aguardava um saboroso bode assado, conforme tinha nos prometido D. Nelma.

No sábado, dia 02, logo depois do café, aí por volta das 08h30min, sempre guiados por Auremilia, saímos para enfrentar uma trilha puxada que nos levou até a Escadaria da Invenção, um conjunto de escadas metálicas cravadas na rocha, por dentro de uma fenda que conduz até o topo a uma altura de cerca de 200 metros. Até a guia sentiu o peso da subida; numa das paradas, entre um lance de escadas e outro, sentei para descansar e ouvi a respiração forçada dela, também sentada a curta distância. Ao final o magnífico prêmio ao esforço, uma paisagem feita de elevações e vales a perder de vista, com destaque para pontos importantes do Parque como o sítio do Mocó e o Baixão da Pedra Furada.

Após a descida voltamos ao carro e fomos conhecer a fábrica de cerâmica (www.ceramicacapivara.com) dirigida com competência e segurança por D. Girleide Oliveira e D. Carmelita Oliveira. Ali fomos muito bem recebidos, convidados a visitar as instalações e as diversas etapas do processo produtivo. Tivemos a oportunidade de conhecer e conversar demoradamente com a figura mais emblemática do Parque, a sua memória viva, Nivaldo Coelho de Oliveira, marido de D. Carmelita, homem de múltiplas habilidades, sanfoneiro, oleiro, maniçobeiro, artesão e uma, não assumida, de caçador que ele nega e renega já que se afirma preservacionista convicto. Como profundo conhecedor da área do Parque veio a ter grande importância para o trabalho de Niede Guidon atuando como seu guia pelos cantos e sendas onde foram encontrados os tesouros que colocam Serra da Capivara entre os mais importantes sítios arqueológicos do mundo. Enquanto manipula o barro, produzindo desenhos em baixo relevo, o simpático Nivaldo vai nos contando histórias e “causos”, orgulhoso da sua participação no processo de consolidação do Parque. Sempre alegre e brincalhão conclui a peça e sai conosco para a loja de cerâmica. Carlinhos se entusiasma com a decoração e a qualidade das cerâmicas, preparadas para suportar freezer, forno e microondas e acaba comprando peças em quantidade e variedade suficiente para guarnecer sua casa. A dupla Girleide/Carmelita agradece.

De volta ao Parque caminhamos pela Toca da Ema e Sítio do Braz I e II onde, passando por uma passarela elevada, pudemos apreciar o paredão de arenito depredado e em vias de ser destruído pela erosão. As pinturas rupestres estão muito desgastadas e em risco constante. O arenito se fragmentou em finas lâminas que lembram casca de madeira seca e ameaçam cair a qualquer instante. Nem pensar em tocar um dedo tal a sua delicadeza e fragilidade. À direita, um pouco abaixo, são claramente visíveis os sinais de que naquela área correu, em algum momento perdido do passado, um grande e caudaloso rio. Ante o quadro uma pergunta se impõe: Não seria a Caatinga, bioma bem recente, o resultado da devastação de culturas antepassadas? Na seqüência, para encerrar o primeiro ciclo do dia passamos nas ruínas da casa de Neco Coelho, avô de Nivaldo, onde está sendo construído o prédio que abrigará o museu histórico. Perceptíveis ainda os restos dos fornos de rapadura e farinha e as trincheiras da escavação em curso. Mais adiante paramos para ver de perto um “muro histórico” que ninguém sabe explicar quem e quando foi feito, mas que indica ter sido construído para conter as águas tanto assim que sua parte mais danificada é a central onde estão os vestígios da passagem de um curso d’água.

Depois de almoçarmos, aí pelo meio da tarde, uma consistente galinha caipira com pirão de parida no restaurante de D. Raimunda, seguimos para a Variante das Andorinhas subindo uma trilha íngreme até o topo de onde se divisa, bem ali aos pés, um cânion espetacular com formações rochosas diferentes das vistas anteriormente, com aspecto de rocha vulcânica em forma de curiosas esculturas, algumas lembrando imensas árvores fossilizadas. Ao fundo um exuberante bosque nos chama a atenção e Auremilia explica que é assim todo o tempo porque lá embaixo é úmido e algumas árvores têm mais de trinta metros de altura. Circulamos ali pelo topo e depois nos aquietamos para assistir a um espetáculo único. Aproxima-se o entardecer, instante mágico em que ainda não é noite, mas também não é mais dia; hora em que o mundo parece recolher-se em silêncio e certa angústia oprime o peito num misto de inqueitação e insegurança. Nesta hora, lá no alto, dezenas, centenas de andorinhas se agrupavam e ficavam a voar em círculos até que, de súbito, em altíssima velocidade, desciam quase que em fila indiana, até perderem-se entre as cavernas do cânion. Impressionou-nos sobremaneira o ruído produzido pelo deslocamento das aves, uma espécie de zumbido difícil de explicar. Quedamo-nos ali no alto das rochas deliciando-nos com o espetáculo que se repetia a cada grupo que se formava para descer em demanda do abrigo noturno. Para completar o final do dia dois ruidosos casais de papagaios — ave que se diz ser monógama — passaram sobre o cânion, talvez em busca do aconchego dos respectivos ninhos. Caiu a noite sobre o Parque..

Domingo aguardamos o Museu do Homem Americano abrir, fizemos uma visita e pegamos a estrada. Enquanto o carro avança estrada afora driblando os buracos, viajo no texto de Darcy e me pergunto que tipo de homem teria nos deixado toda aquela herança. Mais ainda, quem, quando, como e onde ocorreu o seu extermínio? Outros homens ávidos por conquistar espaço?…

 

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