NO OCASO DO VIVER
NO OCASO DO VIVER
NO OCASO DO VIVER
Alcir Santos
Todas as coisas têm seu tempo,
e todas elas passam debaixo do céu,
segundo o termo que a cada uma foi prescrito.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer.
Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.
(Eclesiastes 3.2)
Para contextualizar, tomemos como premissa que Viver é somente um intervalo, algo assim como um bônus entre o Nascer e o Morrer. Alguém há de divergir, é certo. Normal. Afinal, a maioria se aferra à Vida e busca, até com certo desespero, preservá-la, pouco importando em que condições. Têm o respaldo de correntes médicas, adeptas da Distanásia, que garantem ser possível vencer a morte. Para tanto, aí estão as UTI’s com seus aparatos mirabolantes. Ali, a fixação no vencer a morte é tão grande que o doente, com seus males, acaba relegado a segundo plano. Pouco importam dores lancinantes, desconfortos, sede, coceiras, as malditas escaras ou a ansiedade extremada. Se estivesse em casa ou noutro lugar, acessível aos amigos e parentes, certamente estaria sendo ouvido e atendido com cuidado, sem que se apressasse ou se adiasse a morte. Para tanto, aí estão os Cuidados Paliativos, que priorizam o conforto e a dignidade humana. Sim. Se não é possível vencer a morte, importa garantir, com acompanhamento humanizado, qualidade de vida para o doente até o momento final.
Como é grande a resistência aos cuidados paliativos, o legislador brasileiro, em muito boa hora, estabeleceu o instrumento legal para que parentes e aderentes respeitem – e façam cumprir – a vontade das pessoas nos passos finais da vida. Trata-se do testamento vital, também conhecido por diretivas antecipadas de vontade, fundamentado no inciso III do art. 1° da Constituição Federal, que estabelece a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República. O testamento vital foi, em boa hora, regulamentado pela Resolução CFM n° 1.995/2012. Ali o futuro doente expressa a sua vontade soberana e define como quer fazer a caminhada final.
Fato é que, agora, quando já se trilha a fase dos “setenta e uns” e a vida caminha para o ocaso, o corpo emite sinais de alerta, lembrando ao vivente que agora os tempos são outros. Sim. Agora é o tempo em que o cérebro já não comanda o corpo com precisão. Braços, pernas, mãos já não aceitam voz de comando com a mesma dinâmica de outrora. É o tempo das dores, dificuldades de mobilidade, esquecimentos e tonturas; tempo das quedas humilhantes, tudo a exigir maior atenção e compreensão; tempo dos remédios que não curam, mas garantem certa qualidade de vida, aliviam as dores e atenuam os incômodos.
Até o cérebro todo-poderoso começa a ter suas falhas, confundir as coisas, esquecer lugares, às vezes levando a situações desagradáveis, até risíveis. De repente, certo dia, surge sorridente uma pessoa, braços abertos convidando ao abraço. Aí o vexame: você não reconhece, não se lembra do nome dela nem nada embora o rosto seja familiar. Aí aquela situação aflitiva: “Oi, não se lembra de mim, sou Beltrano de tal lugar, assim, assim…” Só restam as desculpas esfarrapadas de sempre e o abraço flácido, sem graça. Noutras ocasiões, num simples bate-papo ou, até mesmo, sustentando um ponto de vista em ambiente formal, falta a palavra ou o termo técnico adequado – e não adianta se esforçar porque ela só vai chegar, se chegar, bem mais adiante. E aquelas histórias contadas e recontadas, recados repetidos, confusões de dias e horários, além de um sem-número de “pequenos” lapsos?
“Ah, menos, menos”, dizem os médicos para acalmar clientes assustados. Tais falhas de memória, afirmam, são naturais e não significam presença das malditas doenças degenerativas, especialmente o Alzheimer e o Parkinson. Estas, sim, mudam o roteiro das histórias de vida. No Alzheimer, a vítima sai do ar e os sofrimentos vão para os circunstantes; já no Parkinson, o cérebro é o último que apaga, deixando com a pessoa o indizível tormento de sentir, à medida que evolui, o corpo perdendo funções. Paladar, olfato, visão, tato, até, na fase final, a perda das funções cognitivas.
Não importa qual seja a enfermidade, a vida segue seu caminho. É necessário viver até o ocaso, até o momento, sem pressa e sem agonia, da chegada de Tânatos; pegar de sua mão e se deixar levar ao encontro de Hades.
Viver, nessa altura, é também recordar os doces e duros tempos passados. Decididamente, chega o instante em que já não se dispõe daquele corpo capaz de coisas como subir em árvores; montar em cavalos, burros e jumentos até mesmo sem selas e bridões; atirar-se de árvores ou pedras nas corredeiras de rios e regatos, depois sair nadando para enfrentar corredeiras sem pensar nas pedras escorregadias; remar por horas as pesadas canoas de transporte de cargas; participar por infindáveis horas de “baba” na praia, mesmo na lama, sem importar sol ou chuva, mitigando o cansaço com um mergulho, “pegar jacaré”, deixar-se levar pelas ondas… Ah, as incursões, praia afora, com sol ou chuva, ao sabpr da maré. Recordar é sentir o contentamento de ter vivido.
Chegados os “setenta e uns”, inicia-se a curva descendente, aposentadoria, médicos, clínicas, exames de todos os tipos e formas, restrições de toda ordem, pílulas, xaropes, pomadas, líquidos – hora de viver com mais vagar, com a certeza de que o que deixou de ser feito ficou no passado; buscar nas recordações motivos para celebrar; tomar consciência de que é tempo do ocaso, fazer o balanço da vida, somar todo o realizado, deduzir o que não foi feito, olhar o resultado e dizer a si mesmo: Eu Vivi.
Agora é o tempo de seguir a trilha, cuidar para não cair na câmara de tortura das UTI’s. Muito pelo contrário, buscar a qualidade no processo de morte, estar entre pessoas queridas, sem escaras, sem coceiras. Mas seguir sem dores, mitigadas pelas medicações apropriadas, em doses que não apaguem, para permitir continuar interagindo com os circunstantes até que chegue a hora da partida.
Mas quando vibrar a última balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça
Quem me dera morrer então risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E a Via Látea da Ilusão que passa!
Augusto dos Anjos, in Ecos d’Alma.



Excelente texto! Estou na fase dos “setenta e uns” e concordo integralmente com o autor.