A COMILANÇA DA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
A COMILANÇA DA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

Anunciação, de Fra Angelico.

Entrada Triunfal em Jerusalém, Gioto

Ceia de Leonardo da Vinci
A COMILANÇA DA SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO
Alcir Santos
Uma questão que submeto a todos na procura de uma resposta já que as pesquisas feitas não me levaram a lugar nenhum. O Código de Direito Canônico (Codex Iuris Canonici) estabelece, no seu art. 1.251, com redação dada no papado de João Paulo II, que serão guardados jejum e abstinência na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. Pois bem, desde que me entendo por gente que aqui na Bahia, Recôncavo e Litoral em regra, a Sexta-Feira Santa é um dia em que as famílias se reúnem em volta de uma mesa bem farta para um regabofe de causar inveja a Pantagruel. É uma festa tão arraigada nos costumes locais como o Círio de Nazaré em Belém. Como lá não pode faltar o pato no tucupi, aqui na Bahia não pode faltar bacalhau, que, diga-se, é democrático já que tem para todos os gostos e bolsos. Na mesa, só tem uma ausência: a carne. Fora daí, arma-se um espetacular banquete onde não faltam moquecas (de peixe, bacalhau, marisco), vatapá, caruru, feijão de côco, efó e, claro, vinho tinto; na sobremesa, vale tudo, tortas, sorvetes, frutas, compotas e bolos. Detalhe, não vi tal tradição, nem noutros cantos do Brasil, nem na Europa.
Agora, costumo ficar na sacada para apreciar as pessoas chegarem aos prédios trazendo pratos, bandejas e garrafas, que serão devidamente incorporados ao repasto da casa aonde se dirigem. Vejam que o cardápio é bem baiano, com forte predominância do dendê. Um parêntese: a moqueca é o prato universal por excelência; é o único que leva, na composição, óleos de três continentes: o de palma (dendê), da África; o de coco, da Ásia; e o de oliva, da Europa. Se incluirmos o amendoim, o coentro, o tomate, o pimentão, a cebola, temos então num só prato quase todos os continentes reunidos. De volta à indagação: se o Código Canônico preceitua a abstinência, de onde veio esta adorável tradição que parece estar em total desacordo com a orientação da Santa Madre? Notem que este é um costume típico e próprio das famílias de orientação católica. Até onde posso me lembrar, só não participei desses rega-bofes nos idos tempos de coroinha e seminarista porque, então, tínhamos os dias cheios de atividades intensas e só bem tarde da noite é que podíamos comer com a calma que tal ato exige, mas aí estávamos mortos de cansaço.
Quando saímos da Bahia, mesmo sem pruridos bairristas e com grande capacidade de assimilar os costumes locais, levamos conosco esta tradição sem deixar de incorporar as locais. Em Belém, honrávamos, com comida baiana, a Sexta-Feira Santa e, na melhor tradição do pato e da maniçoba, o Círio de Nazaré. No caso do Círio, íamos como convidados para a casa de amigos. Hoje, não seguimos qualquer orientação religiosa, mas fazemos questão cerrada de preservar esses costumes. Aqui em casa hoje, cumpre-se a tradição. Nada de carne. Somente uma mesa forrada dos acepipes tradicionais. Outra coisa que não pode faltar é o vinho. Quando criança, davam-nos vinho tinto com água e açúcar enquanto os adultos bebiam normalmente. Se eram os tradicionalíssimos Sangue de Boi e Capelinha? Não lembro.
Agora, uma informação recebida da amiga Ana Barbosa, de fortes raízes na região cahoeirana: Sexta Feira da Paixão era o único dia do ano em que os escravizados não trabalhavam. Aproveitavam então para uma espécie de confraternização em torno de uma mesa bem farta, com direito a tudo que pudessem. Como a tradição surgiu aqui no Recôncavo, Cachoeira & adjacências, tem-se o porquê da tradição.
Ah, lembro-me de outra tradição pitoresca que não sei se ainda persiste, mas que foi a cara da minha juventude. Falo do “balaio fechado”, de que Jorge Amado tratou em mais de uma oportunidade. (Note que a greve descrita em Tereza Batista Cansada de Guerra teve outra razão.) Pois bem, a partir da meia-noite da quinta-feira e até um minuto depois da meia-noite da Sexta-Feira da Paixão, as “moças” ficavam indisponíveis, cumprindo a sacrossanta tradição da abstinência da carne (aí em sentido lato). O detalhe picaresco é que, à medida que se aproximava a meia-noite de sexta-feira, a macharada começava a lotar os salões dos bordéis para esperar o momento de cumprir a tradição seguinte que era a da abertura dos balaios. Tempos idos e vividos. Aí, portanto, curiosas nuances da religiosidade baiana. Quem puder – ou souber – explicar suas origens, favor enviar cartas para a redação, que penhoradamente agradece.
Baco, de Caravaggio

Triunfo de Baco, de Velázquez.



