QUALQUER DIA 17

QUALQUER DIA 17 –
DO CADERNO DE VIAGENS (III)

QUALQUER DIA 17 – DO CADERNO DE VIAGENS (III)
08.06.2012

Alcir Santos

A noite primaveril faz esquecer o cansaço da maratona pelos Museus Vaticanos. Para alcançar a Via Veneto, passamos pela Piazza Barberini, onde, não por acaso, estão duas das marcas do escultor que é a expressão de Roma. A Fonte do Tritão e, um pouco à frente, à direita, a Fonte das Abelhas são também de Bernini. Subimos até o início da Veneto, onde fica o Harry’s Bar, lugar de comer bem e beber melhor, na companhia das fotos e imagens dos mitos que por ali passaram. Tudo a ver com Fellini

Michelangelo Buonaroti passou à História como o mais importante artista da Renascença.  Roma permite ao visitante a oportunidade única de apreciar os dois lados do gênio. Pintura na Sistina e na Paulina; escultura em San Pedro (Pietá) e em San Pedro in Vincoli (Moisés). Ele só queria ser escultor. Os caprichos e o poder do irascível Papa Júlio II fizeram dele o genial autor dos mais belos afrescos que o mundo teve oportunidade de contemplar.

Mas, o artista de Roma foi mesmo o napolitano Gian Lorenzo Bernini, talvez o maior escultor do barroco italiano. Está em todos os cantos da Cidade Eterna: nas praças públicas (Fonte dos Rios, Fonte das Abelhas e do Tritão); no Vaticano (colunas da Praça de São Pedro; obras diversas na Basílica, inclusive o magnífico baldaquino em bronze, e nos Museus Vaticanos). Está ainda noutra igrejas e, especialmente, na Galeria Borghese, onde as visitas são de até duas horas e há que se reservar ingressos com antecedência. Na véspera, telefonamos e nos informaram que só havia vagas para depois de 15 de maio. Arriscamos ir direto à bilheteria tentar desistências e – coisas de Roma – conseguimos!

Assim pudemos, mais uma vez, apreciar o inigualável conjunto das esculturas de Bernini guardadas naquele Museu, com destaque para Eneas, Anquises e Ascanio fugindo de Tróia; Davi; Apolo e Dafne; e Rapto de Proserpina. A riqueza de detalhes, a força das expressões, o ríctus impresso nas fisionomias, levam-nos a viajar no universo do artista, buscando entender como foi possível trabalhar o mármore de tal forma que, em alguns momentos, tem-se a sensação de que são figuras vivas.

E é isto que Bernini nos passa. Basta ver os dedos de Plutão encravados nas costas e na coxa de uma Proserpina em desespero, cabelos ao vento e lágrimas sulcando o rosto, enquanto ela tenta desvencilhar-se dele. É só quedar-se na assustadora carga de raiva e ódio transmitida pelos lábios cerrados e pelo olhar firme e concentrado de Davi. Sentir o terror estampado no rosto de Dafne em contraponto à expressão de desalento de Apolo, frustrado no seu intento amoroso, enquanto a amada lhe foge das mãos, transformando-se em árvore pelos encantos providenciais de Gea. Não é só. Para sentir o clima de cada obra, é preciso ver o todo e deter-se nas partes. Só assim, por exemplo, pode-se apreciar a magnífica composição que é Cérbero, com suas três cabeças a guardar Plutão.

Não só de Bernini vive o Borghese. Seu símbolo é Venere Vincitrice, escultura de Antonio Canova retratando Paolina Borghese, irmã de Napoleão Bonaparte, languidamente reclinada sobre o leito, com uma maçã na mão esquerda. À época, essa escultura causou tal impacto que o marido, dono da encomenda, escondeu-a durante anos. Tolo. Paolina ali está imortalizada, com toda sua beleza e sensualidade.

No andar superior estão as pinturas. Obras de Ticiano, Rubens, Rafael, Bellini e, sobretudo, Caravaggio, considerado o maior pintor realista da história da pintura. O pintor milanês, expoente maior do tenebrismo, técnica de fortes contrastes de luz e sombra, impressiona. Chocou o mundo artístico e cultural porque retratava a feiura e a violência extrema sem temperamento. Obras suas foram recusadas pelo cru realismo que expressam. Cinco das mais importantes estão no Borghese. Entre elas, destacam-se  o São João Batista, um jovem sentado languidamente sobre um pano vermelho, e o impressionante Davi com a cabeça de Golias, tela em que o artista se retratou na cabeça do gigante derrotado, numa presumida admissão de culpa, um pedido de graça ao Papa.

O tempo ainda nos permite uma corridinha à Igreja de San Pedro in Vincoli para rever Moisés. Depois, uma caminhada até a Igreja de Santa Maria della Vittoria para um reencontro com a discutida  Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. O impressionante conjunto, criado a partir do que ela conta no seu Livro da Vida (cap. 29.10), comporta, sim, variadas interpretações. O riso maroto do anjo com a flecha dourada compõe com a expressão de enlevo e abandono de Teresa, lábios entreabertos de respiração forçada, um conjunto de rara expressividade. Êxtase espiritual ou carnal?

Como bom mestre, Bernini não explica; provoca.

 

 

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