SERRA DO CIPÓ-TIRADENTES
SERRA DO CIPÓ/TIRADENTES
TURISMO ECO-HISTÓRICO

SERRA DO CIPÓ/TIRADENTES – TURISMO ECO-HISTÓRICO
Alcir Santos
alcir.santos@uol.com.br
Meu primeiro contato com Serra do Cipó (MG) foi através do site da Rota Alternativa (www.rotaalternativa.com.br). Como o roteiro deles é de sete dias, optei por um de quatro dias com mais três nas cidades históricas. Submeti a idéia a Sônia que topou. Depois conversei com Carlinhos que aceitou e me pediu para organizar e detalhar a programação, ficando certo que ele só faria a parte do ecoturismo.
Depois das pesquisas e definição da programação em Cipó, por indicação de Carlinhos fiz contato com a Pousada das Pedras (www.pousadadaspedras.net) e, por eles, com o guia Rodrigo Lacerda (rbl@brfree.com.br). Fechamos a programação e o traslado, a partir de Confins, com Rodrigo; a hospedagem na Pousada das Pedras. Este o ponto fraco de todo o tour: a hospedagem é desconfortável e cara; os proprietários confundem rusticidade com desconforto e o resultado são quartos escuros, sem um armário ou até mesmo um cabide para guardar roupa, colchões curtos, lençóis rasgados e um serviço distante e displicente; se salva apenas o razoável café da manhã.
Para a parte histórica, depois das pesquisas, decidimos por ficar em Tiradentes, fazendo as reservas na excelente Pousada Padre Toledo (www.padretoledo.com.br); para transporte reservamos, na Hertz, um carro básico com ar.
A parte aérea, como de sempre, foi resolvida por Lígia da Hansatour (ligia_cerqueira@hotmail.com) que nos conseguiu vôos na TAM saindo de Salvador no dia 20/07 às 4h55min (JJ 3377) e retornando 27/07 às 22h30min (JJ 3376). A despeito dos horários, tais voos oferecem a vantagem do aproveitamento integral de todos os dias, tanto na chegada como no retorno.
Rodrigo já nos aguardava quando desembarcamos em Confins, por volta das 6h30min, sob um frio de 10º. Partimos logo para Serra do Cipó, com duas rápidas paradas para um café e abastecimento do Land Rover. Passamos na pousada para deixar a bagagem, trocar de roupa e já pelas 9h estávamos partindo para a Cachoeira da Capivara, no rio do mesmo nome. Tomando a MG-10 e passando pela estátua do Juquinha até que, 22 km depois, deixamos o Jeep e tomamos a trilha por um terreno arenoso e cheio de pedregulhos. Em volta a paisagem se compõe de uma vegetação rala e seca (campos rupestres, transição entre cerrado e mata atlântica) e muitas pedras. No total gastamos cerca de duas horas e meia de caminhada.
A cachoeira está a uma altitude de 1.200 m e se divide em duas quedas. Uma sequenciada, com 50 m de altura e um poço de 30 m de diâmetro, e a outra livre, com 70 m e poço de 100 m. Mesmo aquecidos pelo esforço da caminhada ao sol, não foi possível tomar banho. De tão gélida a água impedia a aclimatação do corpo. Poucos segundos após a imersão uma espécie de entorpecimento subia pelas pernas forçando a saída imediata. Isto não nos impediu de apreciar a beleza das quedas, a limpidez da água e fazer boas fotos, inclusive das curiosas formações rochosas apontadas para oeste (onde o sol se põe) e que datam das origens da Serra do Espinhaço, há milhões de anos.
No retorno paramos para almoçar no Fogão de Lenha. Ao preço de R$24,90 um bem servido prato, comemos um “frango com ora-pro-nóbis” e um “tutu com costelinha de porco”. Ótimos. À tarde fomos até a Cachoeira Grande, no Rio Cipó, praticamente na área urbana. Embora de pouca altura, oferece o atrativo de ter um bom comprimento (50 m). Dali, pegamos canoas canadenses para um passeio pelo Rio Cipó, observando a fauna local, especialmente garças, socós e famílias inteiras de capivaras. À noite, exaustos, fomos jantar no Petras, onde nos limitamos a um substancioso e revigorante caldo de mandioca.
Na quarta-feira, dia 21, o grande destaque desta parte da viagem: Cachoeira do Tabuleiro, Parque Municipal Ribeirão do Campo, Conceição do Mato Dentro. Sem qualquer favor uma das mais belas trilhas que se pode fazer no Brasil ou alhures. O percurso pelo leito do Ribeirão do Campo, com pouca água nesta época do ano é, simplesmente, uma festa. Trilha de nível médio, com algumas escaladas, inúmeros banhos (lagos, duchas, quedas etc), paisagens inesquecíveis e, no final, a espetacular queda livre de 273 m. A paisagem é estonteante. Do alto da cachoeira com os enormes paredões à direita e à esquerda, o vale embaixo e sob um límpido céu azul, é possível sentir-se mais próximo de forças transcendentais. Quase como um templo a céu aberto. O cenário convida à meditação e também à oração. Um lugar simplesmente mágico. Programa de um dia inteiro. Quarenta quilômetros de estrada, mais quinze de off road pelo alto da APA da Serra do Intendente e, depois, a trilha propriamente dita, cerca de duas horas. No retorno, o Rodrigo nos conduziu por mais uma caminhada de uns quarenta minutos, até à beira de um imenso cânion tendo-se, à direita, a Cachoeira do Tabuleiro. Vale!
Na viagem de Jeep, pelo topo da Serra do Espinhaço tem-se uma paisagem muito interessante. A estrada separa vegetações distintas: à direita (oeste) mata atlântica; à esquerda (leste) campos rupestres. Isso sem falar das quaresmeiras, sempre-vivas, azaleias e lavoisieras encontradas ao longo da trilha de par com aves de rapina que, de quando em quando, bailavam soltas, flutuando, nas correntes de vento. Neste dia o grupo foi de seis, já que três mineiros se incorporaram. Sem dúvida o programa foi de intensa interação com a natureza. À noite chegou Solange e fomos jantar no Panela de Pedra, comida ruim, preço alto e serviço fraco; típico lugar feito para explorar turista.
Hora de reavaliar: tínhamos combinado Cânion das Bandeirinhas/Cachoeira da Farofa e Travessão. Rodrigo ponderou que seria muito pesado e pouco satisfatório. Aceitamos e redefinimos: no terceiro dia, Cachoeiras da Serra Morena e da Caverna; no quarto e último, Lapinha. Assim, no dia 22, fomos para as duas cachoeiras. Primeiro fomos à Caverna, no Córrego Água Limpa, onde a água é mineral, fato raríssimo. Ali nos demoramos um bom tempo já que o dia e a temperatura da água permitiam banho. Além disso, a posição do sol dava à água uma indescritível tonalidade esverdeada. Aproveitamos a beleza e a tranquilidade para degustar um bom Malbec argentino, resfriado na própria água. Depois da Caverna – o nome deriva do fato de existir uma sob a cortina d’água – rumamos para a Morena, no Rio André Quisset. Ali fizemos uma pequena trilha até a 2ª queda, tomamos um rápido banho e, em seguida, pelo leito, uma caminhada curta mas muito forçada, porque feita subindo e descendo pedras com o máximo de atenção para evitar acidentes, até a 3ª queda. A esta altura só nos restava voltar porque a tarde já ia pelo meio e a fome nos acossava. O guia tinha razão. Um dia agradável, belas paisagens, trilhas curtas sem maiores dificuldades e, também, um clima de grande fraternidade e solidariedade no grupo. Agora já éramos nove (sete adultos e duas crianças). Um registro: Rodrigo incorporou ao grupo, com nossa aquiescência, uma família de São Paulo (Armindo/Tiqui, Cilene e Luiza) e mais o seu filho Artur. Ficou muito bom. Luiza (nove anos) e Artur (três anos e meio) se comportaram de forma absolutamente normal; ágeis e à vontade nos acompanharam como pessoas tarimbadas. A química foi ótima. Grandes parceiros!
Finalizamos o dia com uma rápida passagem no alambique de João Nicicio, onde se produz cachaça pelo método mais tradicional, com a fermentação feita com milho. Em seguida fomos disputar mesa e comida no Café da Serra. Apesar da demora, valeu a pena; comida típica de primeira e preço melhor (a conta, incluindo bebidas e sobremesa, ficou em R$130,00).
No último dia saímos cedo em direção ao Município de Santana do Riacho, para percorrer 45 km de estrada poeirenta e perigosa até Lapinha, um distrito que abriga uma comunidade de descendentes de escravos com alguns costumes curiosos como, por exemplo, não comer carne e praticar uma economia de escambo. Desembarcamos e imediatamente tomamos botes para atravessar a Lagoa da Lapinha e chegar até algumas inscrições rupestres de 4 a 8 mil anos atrás. Bem interessante; uma delas – que pode ser um símbolo de fertilidade – mostra um gnu, em amarelo, com uma imensa barriga e, no seu interior, em vermelho, um gnuzinho. A foto ficou muito boa. No retorno fizemos uma rápida caminhada até a Cachoeira do Boqueirão onde a maior parte do grupo preferiu ficar tomando banho no Poço da Esmeralda. Sonia, Solange e eu, com o guia à frente, fizemos uma pequena trilha ascendente, íngreme, até um mirante que nos permitiu contemplar a Serra da Lapinha ao fundo, com a lagoa embaixo. Paramos no Luar da Serra, onde D. Terezinha nos proporcionou um espetacular almoço da típica cozinha caseira de Minas (já incluído no preço do guia). Um grande final! À noite nos reunimos no Petras para a despedida.
Segunda-feira, 24, depois do café, pegamos carona com Solange e, em Confins, tomamos o carro já reservado na Hertz e entramos na BR-040, no sentido das cidades históricas, até Tiradentes. Uma parada em Congonhas para apreciar o sempre emocionante conjunto da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, com a igreja, os profetas e os passos. É incrível a insensibilidade das autoridades do turismo mineiro. Como é que se permite que os profetas, em pedra sabão, continuem expostos, sofrendo danos irreparáveis? Em qualquer lugar do mundo já estariam abrigados num museu, substituídos por réplicas. Coisas do Brasil… Almoçamos no Cova do Daniel uma galinha ao molho pardo a um preço total de R$42,02. No final da tarde chegamos a Tiradentes. Ótimo exemplo de preservação do patrimônio histórico. Nenhum poste, nenhuma fiação aérea, nenhuma construção moderna ou mesmo uma telha de amianto à vista. É como uma viagem ao passado. Na pousada Padre Toledo fomos muito bem recebidos por Luiz Fonseca e, logo, nos sentimos em casa. O empreendimento é tocado pela família que administra ainda um restaurante, um alambique e uma pousada fora da área urbana, na fazenda.
Na terça-feira, após o lauto café da manhã, saímos para uma volta pela cidade, de charrete, com paradas nos pontos históricos, cadeia pública, Igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos (construída por escravos e com imagens de santos negros nos dois altares laterais – Santo Elesbão, Santo Antonio de Noto e São Benedito, o primeiro um rei e os dois outros, escravos etíopes); e a rica e bela Matriz de Santo Antonio com seus altares em talha dourada, fachada e portada atribuídas a Aleijadinho, cuja construção teria durado 100 anos (de 1710 a 1810). Destaque para o coro decorado com guirlandas de flores douradas e o órgão português, além dos dois quadros em couro, à direita (Bodas de Caná) e à esquerda (Última Ceia) do altar mor. Almoçamos um imenso Mané sem Jaleco (mexido de arroz com feijão, couve, bacon, ovos e lombinho, suficiente para três ou quatro pessoas) no Estalagem do Sabor, a um preço total de R$67,00, com ótimo atendimento do Marcílio.
À tarde, pela Maria Fumaça (R$39,00 os dois, ida e volta), fomos a S. João D’El Rey onde visitamos a Igreja de N. Sra. do Pilar, considerada a 4ª mais rica do Brasil, com destaque para um Cristo cujas gotas de sangue são rubis e o São Miguel cravejado de rubis, esmeraldas e diamantes. Depois passamos pela Rua Santo Antonio com suas originais casas tortas, construídas por escravos. Antes de pegar o trem passamos na FAEMAM, fábrica de objetos de estanho (93,5% cassiterita, 1,5% cobre e 5,0% antimônio), onde compramos algumas peças. De volta a Tiradentes aproveitamos o final de tarde para andar pelo comércio e comprar delicadas jóias de prata, especialidade local. Á noite, jantamos muito bem, no Restaurante Padre Toledo.
No dia 26, quarta-feira fomos, com hora marcada, na fábrica Burza onde uma família russa produz artesanalmente, em aço importado da Áustria, especialíssimas facas, de todos os tipos. O proprietário, um ótimo papo. Em seguida, ali juntinho, passamos no Chafariz S. José de Botas, de 1749, que atendia o abastecimento das pessoas, animais e, também, numa parte reservada lavagem de roupa. Funciona ainda hoje. Depois subimos até o alto da Igreja de S. Francisco de Paula, de onde se tem uma visão panorâmica de toda a cidade e que ficou no imaginário de todos porque ali foi feita a cena em que Ana Paula Arósio ficou nua para tentar o padre, em Hilda Furacão. Por volta de 13h30min estávamos na Estalagem do Sabor para comer a Abóbora Real (recheada com charque e acompanhada de arroz com taioba) encomendada de véspera; preço do prato R$69,00.
Após o almoço fomos ao museu onde foi a casa do Padre Toledo. Interessante, este padre, que não aparece nos livros de história, foi um dos líderes da Inconfidência. Carlos Correia de Toledo e Mello foi vigário da Paróquia de São José d’El Rey ou S. José das Mortes (atual Tiradentes) entre 1777 e 1789, quando foi preso; em 1788 teria oferecido uma festa na casa dele pelo batizado de dois filhos de Bárbara Heliodora e Alvarenga Peixoto; entre os convidados Tomaz Antonio Gonzaga; a ocasião serviu para realizar a primeira reunião dos inconfidentes, onde se falou abertamente em libertar o Brasil de Portugal; diz-se que Padre Toledo tinha ricas minas no Arraial de Lage e vivia nababescamente entre festas e boa música.. Final da tarde, passando pelo Centro Cultural Yves Alves, tivemos a oportunidade de assistir um grupo de contadores de histórias de Guimarães Rosa, Miguilins, de Cordisburgo. A história contada pelo grupo era a de Diadorim. Ótimo! Para completar veio ao palco Vilma Guimarães Rosa. Importa esclarecer que Yves Alves foi um diretor da Globo MG que se apaixonou pela cidade, onde morou até morrer, e desenvolveu todo um trabalho de promoção, inclusive a locação de novelas e séries.
Final de viagem. Dia 27 saímos de volta para Confins parando em Mariana para visitar a Mina da Passagem, maior mina de ouro aberta à visitação pública no mundo. Num troller se alcança o fundo (120 m) e, lá embaixo, há uma visita guiada pelas galerias. Desde sua fundação, no início do século XVIII, foram retiradas cerca de trinta e cinco toneladas de ouro. Almoçamos e rumamos direto para devolver o carro e, às 22h30min, embarcar para Salvador.
Custo (casal)
1 – passagens aéreas (em 6 vezes)………………………………………..R$796,48
2 – hospedagem em Cipó……………………………………………………. 576,00
3 – hospedagem em Tiradentes……………………………………………. 450,00
4 – locação carro………………………………………………………………… 368,19
5 – combustível………………………………………………………………….. 94,00
6 – comidas e bebidas…………………………………………………………. 482,50
7 – traslado Confins/Cipó……………………………………………………. 106,00
8 – diárias guia (Rodrigo)……………………………………………………. 540,00
9 – mina da passagem (ingressos)………………………………………… 34,00
10 – passeio de charrete e traslado trem………………………………… 40,00
11 – Maria Fumaça (Tiradentes/s.João/Tiradentes)…………………, 39,00
12 – city tour S. João…………………………………………………………………… 40,00
13 – lanche Confins e táxi Salvador……………………………………………. 84,00
Total………………………………………………… R$3.660,17 (1.830,08 per capita)






